Quais raças sofrem mais com o calor?
A primeira característica: o focinho
Cachorro não transpira. As poucas glândulas sudoríparas que ele tem ficam nos coxins das patas e rendem praticamente nada. Toda a regulação de temperatura dele passa por ofegar: ele respira rápido e superficial, evapora líquido da língua e das vias respiratórias, e assim tira calor do corpo.
Em um cão de focinho curto é justamente esse caminho que funciona mal. As vias aéreas são comprimidas, as narinas muitas vezes estreitas, e para a mesma quantidade de ar é preciso muito mais trabalho muscular. Esse trabalho, por sua vez, gera calor. Ele ofega mais e consegue menos.
E no Brasil isso não é um segmento de nicho: o Shih Tzu é a raça mais comum do país, e o Pug e o Buldogue Francês também estão entre as mais criadas. Ou seja, o cão de focinho curto não é a exceção aqui — em muitos lares ele é a regra.
Para um Buldogue Francês, uma superfície fria não é item de conforto: é o caminho principal que sobra, porque ele consegue soltar calor pela barriga, onde o pelo é fino e a pele encosta no chão.

A segunda característica: o pelo
Aqui o raciocínio costuma errar. Não é o comprimento que decide, é a densidade do subpelo. Um pastor alemão não tem pelo especialmente longo, mas tem um subpelo muito denso que funciona como camada de isolamento. Um galgo, de pelo curto e fino, se vira muito melhor no calor que um boiadeiro bernês.
Pelo mesmo motivo o British shorthair aparece alto na lista dos gatos apesar do pelo curto: o subpelo dele é excepcionalmente fechado.
O que ajuda é escovar, não tosar. Tirar o subpelo morto reduz o isolamento sem retirar a proteção. Tosar, em raças de pelagem dupla, tira também a camada que protege do calor externo e da queimadura de sol.
A terceira característica: a massa
Um corpo grande gera mais calor e tem proporcionalmente menos superfície para eliminá-lo. É por isso que um boiadeiro bernês, um cane corso ou um rottweiler passam pior do que um jack russell.
O fator que na prática pesa mais, e que não aparece em tabela de raça nenhuma, é o excesso de peso. Tecido adiposo isola, e um cachorro acima do peso ainda desloca mais massa a cada passo. Um labrador gordinho sofre mais no verão que um pastor alemão magro.
Raças por nível de risco
A tabela abaixo não classifica por popularidade, e sim pelas três características acima. Se a sua raça não estiver aqui, olhe focinho, pelo e peso — dá no mesmo.
| Raça | Risco | Por quê |
|---|---|---|
| Shih Tzu | muito alto | Focinho curto: ofegar é bem limitado — e é a raça mais comum do Brasil |
| Buldogue Francês | muito alto | Focinho curto: ofegar é fortemente limitado |
| Pug | muito alto | Focinho curto, e com frequência também acima do peso |
| Cane corso | alto | Massa corporal grande, focinho encurtado |
| Lhasa Apso | alto | Pelo longo e denso, muito criado no Brasil |
| Pastor alemão | alto | Subpelo denso que isola no verão |
| Golden retriever | alto | Pelo longo e denso |
| Rottweiler | alto | Muita massa e pelagem escura |
| Labrador retriever | médio | Pelagem de cobertura densa, tendência a ganhar peso |
| Dachshund | médio | Corpo comprido e baixo, pouco ar por baixo da barriga |
| Chihuahua | baixo | Pouca massa, pelo curto, esfria rápido |

E nos gatos
Gatos aguentam calor melhor que cães: os ancestrais deles viviam em regiões secas. Dois grupos são exceção, e isso é questão de anatomia. Vale a mesma ressalva de antes, ainda mais forte aqui: 86 % dos gatos brasileiros são SRD, então a tabela é referência, não resposta.
| Raça | Risco | Por quê |
|---|---|---|
| SRD (vira-lata) | médio | 86 % dos gatos do Brasil: olhe o pelo e o focinho dele, não a raça |
| Persa | muito alto | Pelo longo e focinho achatado ao mesmo tempo |
| Maine coon | alto | Pelo semilongo e denso, a maior raça doméstica |
| Gato-norueguês-da-floresta | alto | Pelagem de inverno densa, selecionado para o frio |
| British shorthair | médio a alto | Subpelo muito denso apesar do pelo curto |
O persa acumula os dois fatores de risco: pelo longo e focinho achatado. Com isso ele é o gato doméstico mais vulnerável que existe. Como o gato demonstra calor e o que ajuda está nas páginas gato com calor: os sinais e como refrescar seu gato.
O que isso muda na prática
Com um animal das primeiras linhas, tudo se antecipa um pouco. Passear mais cedo e por menos tempo. Ficar atento a partir de 25 graus em vez de 30 — e a partir de menos ainda se o dia estiver abafado, porque a umidade derruba justamente o ofegar. E uma superfície maior para deitar, porque um animal que solta pouco calor pela respiração precisa de ainda mais área de contato.
Por isso, na dúvida, o tamanho acima é a escolha certa: não porque um tapete grande refresque mais, mas porque um animal que consegue se deslocar sempre encontra um ponto que ainda não esquentou. Por que o efeito cai em um ponto só está em quanto tempo dura o tapete gelado.
Perguntas frequentes
Por que cães de focinho curto sofrem tanto com o calor?
Porque o cachorro regula a temperatura quase só ofegando: evapora líquido da língua e das vias respiratórias, e isso leva calor junto. Um cão de focinho curto como o Shih Tzu ou o Buldogue Francês tem vias aéreas encurtadas e narinas muitas vezes estreitas: para a mesma quantidade de ar ele precisa de muito mais trabalho muscular, e esse trabalho por sua vez gera calor. Ele ofega mais e consegue menos. Com umidade alta, que é comum no Brasil, isso piora ainda mais, porque a evaporação em si já rende pouco.
Preciso tosar meu cachorro de pelo longo no verão?
Em raças de pelagem dupla como pastor alemão, husky ou pastor australiano, em geral não. O pelo isola nos dois sentidos e protege a pele de queimadura: tosado costuma ficar pior, não melhor. O que realmente ajuda é escovar a fundo para tirar o subpelo morto. Se o pelo estiver muito embolado, deixe essa decisão para mãos experientes.
Cachorro preto sofre mais?
No sol, sim: pelagem escura absorve mais calor de radiação. Na sombra ou dentro de casa a cor quase não pesa: ali o que conta é a densidade do pelo, o comprimento do focinho e a massa corporal.
Meu cachorro é vira-lata e não está na lista. O que vale para ele?
Valem exatamente as mesmas três características: qual o comprimento do focinho, quão denso é o pelo, quanto ele pesa. Quem olha essas três sabe mais do que qualquer tabela de raça poderia dizer — e no Brasil isso é o caso da maioria, já que cerca de um quarto dos cães e 86 % dos gatos não têm raça definida.
Um tapete gelado faz mais sentido nessas raças?
Para elas faz mais diferença, porque têm menos alternativas. Um cachorro que ofega mal depende muito mais de soltar calor pela parte de baixo do corpo, e é exatamente para isso que serve uma superfície fria para deitar. O tapete, porém, não substitui sombra, nem água, nem o veterinário em caso de insolação.
Este texto não substitui a avaliação de um veterinário.
Mais superfície para quem precisa
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